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segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Resenha: A valise do professor



A valise do professor
Hiromi Kawakami
Editora Estação Liberdade
232 páginas
Tradução de Jefferson José Teixeira

À beira dos 40 anos, Tsukiko Omachi é uma mulher solteira, que trabalha numa firma e nas horas de folga frequenta o bar de Satoru. Numa das idas ao bar, ela reencontra seu antigo professor de língua japonesa, Harutsuna Matsumoto, um homem na casa dos 70 anos e que está sempre munido de sua valise. Ele reconhece a ex-aluna, e ela, que não era lá uma estudante muito aplicada, demora um pouco a se lembrar do nome do antigo mestre.

Como vão ao mesmo bar quase todos os dias, Tsukiko e o professor encontram-se frequentemente e passam a dividir as bebidas, e depois descobrem que possuem quase a mesma preferência para os tira-gostos. Conversa vai, conversa vem, os dois criam uma relação muito próxima, que extrapola o simples encontro no bar e se estende aos convites para passeios. Com o tempo, o sentimento de Tsukiko em relação ao professor torna-se mais intenso, a ponto da ex-aluna não conseguir parar de pensar em Matsumoto e não conseguir se relacionar com outra pessoa. Em conflito com seus próprios sentimentos, Tsukiko sofre também porque sente que não é correspondida.

A valise do professor, segundo título da autora Hiromi Kawakami que resenho aqui no blog, é uma história comovente sobre a relação entre o professor Matsumoto e sua ex-aluna Tsukiko. Ele, que vive sozinho desde que a mulher fugiu de casa em circunstâncias bem estranhas, é uma pessoa calma e gentil que encontra em sua ex-aluna uma ótima companhia para seus passeios e conversas sobre haikus de Bashô e comida japonesa. Ela, sem namorado e nem amigos, recorre constantemente ao professor quando precisa de alguém para jogar conversa fora ou passar horas agradáveis.

Mesmo que Tsukiko não seja mais sua aluna dos tempos de ensino médio, o professor ainda continua a ensiná-la, só que o objeto de seus ensinamentos versa sobre coisas muito diferentes. Cogumelos, pratos da culinária japonesa, bebidas, caminhadas, cultura nipônica... É engraçado notar que há muita referência à culinária japonesa e seus vários ingredientes de origem marinha. Confesso que, ao ler este livro, senti muitas vezes água na boca só de ler as descrições que a autora faz dos pratos que Tsukiko e o professor pedem, no bar de Satoru ou em outros estabelecimentos comerciais.

Muito ligada ao professor, Tsukiko vai desenvolvendo ciúmes em relação a ele. Algumas situações bobas também fazem com que os dois parem de conversar ou se encontrar por dias ou semanas, mas isso ocorre muito mais por conta do orgulho e da teimosia de Tsukiko do que por vontade do professor. Para ele, é como se os períodos de silêncio fossem situações corriqueiras, nada que possa interferir de maneira séria em sua vida. Todas as vezes em que Tsukiko retoma contato com o professor, este age como se nada tivesse acontecido.

O clima que ronda o livro é de uma certa tristeza, trazida à tona pelo passado vivido pelo professor e também pela dificuldade que Tsukiko tem em expressar seus verdadeiros sentimentos. Mesmo os momentos em que os dois se divertem em passeios não ajudam muito em dissipar esta sensação.

Leitura rápida, sem muitos rodeios e com toques poéticos, este livro de Hiromi Kawakami é mais um ótimo título trazido pela Estação Liberdade. Vale a pena ler este belo e triste enredo!

Astral do livro:

Avaliação:



terça-feira, 19 de agosto de 2014

Resenha: Quinquilharias Nakano




Quinquilharias Nakano
Hiromi Kawakami
Estação Liberdade
284 páginas
Tradução de Jefferson José Teixeira

Um livro leve e engraçado sobre o cotidiano e os dramas pessoais dos funcionários de uma loja de quinquilharias usadas: é assim que descrevo o livro Quinquilharias Nakano, primeiro título da autora Hiromi Kawakami trazido ao Brasil pela editora Estação Liberdade. Sem um enredo fechado, este livro mostra as situações banais envolvendo os personagens Haruo e Masayo Nakano, Takeo Kiryu e Hitomi Suganuma, às voltas com relacionamentos amorosos e clientes bizarros.

Haruo Nakano é o patrão e dono da Quinquilharias Nakano, uma loja que é equivalente ao que conhecemos como pregão ou brechó (não chame de antiquário, pois o patrão não gosta). Nela, vende-se um pouco de tudo: roupas, artigos decorativos, móveis, eletrodomésticos, objetos de arte. A maioria desses produtos têm origem em "retiradas" que o senhor Nakano faz em casas de famílias que estão de mudança ou que estão se desfazendo de bens que foram de pessoas falecidas. A irmã mais nova do senhor Nakano, Masayo, é uma artista de meia idade que está em um relacionamento complicado, mas não perde tempo em implicar com a vida amorosa do irmão.

Hitomi, a protagonista e narradora do livro, é uma jovem que trabalha como caixa na loja do senhor Nakano. É ela quem tem de aguentar as pérolas do patrão, que a faz também de detetive apenas para ficar de olho em Masayo. Com sentimentos mistos de raiva e amor em relação a Takeo, seu colega de trabalho, Hitomi passa quase o livro inteiro às turras com o rapaz, não sabendo definir o que se passa entre eles. Takeo, o crush de Hitomi, é um funcionário calado, que ajuda o senhor Nakano nas retiradas, fazendo um pouco de tudo dentro da loja. O livro mostra o impasse no relacionamento dos dois jovens funcionários, com Hitomi investindo mais em Takeo, e este sem saber o que fazer.

Além dos funcionários da loja e dos irmãos Nakano, há personagens estranhos e não menos curiosos, como a amante de Nakano, Sakiko, ela também atuante no ramo de objetos usados; Tadokoro, o velhinho safado que tenta vender fotos eróticas; Tokizo, conhecido como Garça, responsável por introduzir o sr. Nakano no mundo dos leilões virtuais; e Maruyama, o amante de Masayo que tem problemas com os proprietários do prédio onde mora. Há clientes interessantes que geram situações engraçadas para a loja do sr. Nakano, responsável por avaliar o preço de cada produto oferecido a ele.

Dessa mistureba de personagens estranhos, surge um excelente livro que versa sobre solidão, relacionamentos complexos e uma certa dificuldade de comunicação. Durante todo o livro, os diálogos passam por comentários meio sem sentido, muitas expressões de espanto e desatenção (ahn?, ah!, como?), e algumas conversas não vão pra frente. Interessante notar como a autora coloca os diálogos: enquanto um personagem conversa com outro, uma conversa tida anteriormente é trazida à tona na cabeça de Hitomi, misturando os tempos. Não sei como se chama esse tipo de recurso (se é que tem um nome), mas o que posso dizer é que o resultado ficou muito bom e diferente do que estou acostumada a ler. 

Por fim, o que tenho a dizer é: leiam este livro! Eu já estou com "A Valise do Professor", também da Kawakami, na fila de leituras, e a expectativa em relação a ele é enorme. ;)

Astral do livro:


Avaliação:







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