quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Assista a este anime - Sailor Moon Crystal




Em 2012, quando a série de TV de Sailor Moon completou 20 anos, veio o anúncio de que uma nova animação, batizada de Sailor Moon Crystal, seria feita pelo estúdio Toei Animation. Foi uma notícia muito boa para quem acompanhou a série pela finada Manchete ou pelo Cartoon Network e cultivava uma grande nostalgia em torno da criação de Naoko Takeuchi. Entretanto, foram necessários dois anos para que a nova série fosse lançada, já que alguns adiamentos ocorreram pelo caminho. A estreia só ocorreu em julho de 2014, com transmissão mundial simultânea pelo site Niconico Douga.

Acompanhei parte da série clássica de Sailor Moon pela Manchete, que exibia o anime no horário da manhã, em 1996. Na época, as revistinhas de notícias sobre quadrinhos e séries de TV, como a Herói, da editora Nova Sampa, e a Heróis do Futuro, da editora Press, eram as únicas fontes de informação disponíveis sobre animes. Era apenas através delas que conseguia saber algo mais sobre Naoko Takeuchi e suas Sailors. Foi em torno dessa rede de elementos – infância, rede Manchete, revistinhas que meu pai comprava - que guardei com muito carinho tudo aquilo que lembrava Sailor Moon.

A chegada de Sailor Moon Crystal, em 2014, não me animou nem um pouco em acompanhar o reboot. Quase duas décadas depois de ter visto a série clássica, senti apenas decepção, porque o “parâmetro de qualidade” que eu tinha era a série antiga. Foi como se estivessem fazendo remendos em algo que já estava pronto, finalizado. Lembro que falei: “Esse reboot de Sailor Moon deve ser ruim, a começar pelo character design dos personagens! Nossa, que feio!”.

DESCULPA, USAGI!

Eu criei uma certa resistência, afinal a série clássica fazia parte daquela época boa da infância, e qualquer coisa que tentasse substituí-la seria um desastre. Mas nessa última semana que antecedeu o Natal fiz uma maratona das temporadas disponíveis de Sailor Moon Crystal – já foram exibidas três até agora - para, a partir daí, tirar minhas impressões sobre o reboot. E mordi minha língua, porque o que assisti foi algo realmente bom!


Impressões e comparação

Cada uma das fases – ou arcos – de Sailor Moon Crystal é composta de 14 a 12 episódios de menos de 30min de duração. Já foram exibidas três fases até agora: Dark Kingdom, Black Moon e Death Busters. Dark Kingdom corresponderia ao que foi exibido pela Manchete, mas de forma bem sucinta. Aliás, não sei se “corresponder” seria adequado, já que a série clássica dos anos 90 continha muitos fillers, e o propósito de SMC é seguir fielmente o mangá. A próxima fase, que começa no primeiro semestre de 2017, será a de Dead Moon Circus.


Na nova série, Usagi mantém suas características mais conhecidas: desleixada nos estudos, romântica, desastrada, fominha, chorona etc. Mas senti em SMC que ela sofre muito, o que ocorre talvez porque nesta nova série o drama não fica diluido em historinhas bobas, como os fillers da série anterior. A ação e a tensão aparecem mais concentradas, e não se perde tempo com episódios que não acrescentam ao enredo. Coadjuvantes como Naru, Umino e Motoki – conhecidos na versão da Gota Mágica como Molly, Kelvin e Andrew – permaneceram, mas não ganharam episódios dedicados a eles.

Perder o horário, quem nunca?

Usagi e Mamoru tem um relacionamento muito bom – digamos que há um clima lovey-dovey entre os dois, muito melhor do que aquele clichê típico de novela, em que o casal não se bica por um longo período até que a implicância se transforma em amor. A transformação deles em casal se dá até rápido – amém! -, o que me interessou bastante. Os beijos e as demonstrações de carinho são mais frequentes também <3


Tuxedo Kamen tirando casquinha 😘
 
( ͡° ͜ʖ ͡°)

Rápida também é a revelação de cada uma das Sailors cuja missão é acompanhar a Sailor Moon/Usagi na luta contra o mal. Basicamente, a primeira fase apresenta Ami, Rei, Minako e Makoto em episódios quase que seguidos, diminuindo bastante o intervalo entre o aparecimento de cada guerreira lunar. Mamoru/Tuxedo Kamen também tem um desenvolvimento rápido na trama, se envolvendo com Usagi nos primeiros episódios.

As Sailors que não aparecem na fase clássica, como ChibiMoon, Netuno, Urano, Plutão e Saturno, são bem aproveitadas na segunda e terceira fases de SMC. Confesso que estava ansiosa para vê-las em ação, pois não acompanhei as fases exibidas pelo Cartoon Network. Haruka, Michiru, Setsuna e Hotaru, apesar de parecerem não muito amigáveis quando surgem, mostram-se fortes, protetoras e preocupadas com as demais Sailors.



Sobre a animação

A animação em si é muito boa, como é de se esperar de um reboot produzido em 2014. Na primeira fase, a transformação das Sailors contém uma textura bem diferente da animação tradicional, já que parece que inseriram algo de computação gráfica nos movimentos. Veja abaixo a diferença entre o make up da primeira fase e a terceira.



A primeira fase não me atraiu muito em relação ao character design: as Sailors estão muito magras, o rosto muito angular, e o desenho dos olhos parece bem desproporcional. A cabeça das Sailors, dependendo do ângulo, torna o desenho das personagens meio grosseiro. O character designer melhorou muito a partir da terceira fase, com suavização dos traços do rosto e melhoras na proporção da cabeça. Os olhos ficaram mais arredondados e combinaram melhor com a beleza das meninas.
 
1ª fase - Dark Kingdom
3ª fase - Death Busters

As cores usadas no reboot são mais sombrias, refletindo a tensão da história e o drama por trás de alguns personagens. Não sei se é algum tipo de tendência, mas depois que assisti a Mahou Shoujo Madoka Magica comecei a ver que o mundo das guerreiras mágicas de anime do século XXI não segue mais aquela explosão de cores das mahou shoujo dos anos 90.

A abertura e o encerramento não mantiveram as músicas das séries anteriores. No encerramento há mais opções, como a música de Tuxedo Kamen, o encerramento com ChibiMoon e o casal Haruka e Michiru.


Conclusão

Como já disse anteriormente, mordi minha língua julgando Sailor Moon Crystal sem ao menos ter visto um episódio da série. O enredo de cada episódio segue cada capítulo do mangá, sem a encheção de linguiça comum a séries de sucesso. O humor ainda está lá, mas comedido, e isso é bom, pois deixa a série bastante focada na ação e nos dramas dos personagens. Os antagonistas são fracos, seguem um padrão de atuação que já deixa antever o resultado, mas o que importa é entreter os fãs, e não transformar a série em objeto de análise mais aprofundada.

O clima de romance entre Usagi e Mamoru é bom, achei que eles estão soltinhos até demais para um padrão japonês. Mamoru se importando muito com Usagi e ChibiUsa é uma das coisas mais agradáveis de assistir em Sailor Moon Crystal!

Se você não assistiu a SMC, sugiro que confira, o resultado está muito bom! Fiz a maratona em quatro dias e me arrependi, porque o negócio acabou rápido mesmo. Agora é aguardar março de 2017 para a quarta temporada, torcendo para que ela mantenha a mesma empolgação das fases anteriores.


quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Resenha: Trilogia do Castelo Animado - Parte I




O Castelo Animado
Diana Wynne Jones
Tradução de Raquel Zampil
Galera Record
318 páginas


Diana Wynne Jones, escritora britânica falecida em 2011, deixou uma vasta obra, composta de mais de 50 títulos publicados em quatro décadas de carreira. Dentre os vários enredos fantásticos criados pela prolífica autora, uma série desponta como uma de suas obras mais famosas: a Trilogia do Castelo Animado. No Brasil, o selo infanto-juvenil Galera Record, pertencente à editora Record, trouxe o primeiro livro da série em 2007, tendo encerrado a trilogia  em 2010. A boa recepção do público aos enredos de Diana Wynne Jones motivou a editora carioca a trazer mais dois títulos da britânica, O Vitral Encantado e Tesourinha e a Bruxa, ambos não relacionados com o universo da trilogia que resenharei aqui.

O Castelo Animado, primeiro livro da trilogia, talvez seja o título mais conhecido de Wynne Jones, já que o diretor japonês Hayao Miyazaki e seu Stúdio Ghibli transformaram o enredo em um longa-metragem animado em 2004. A reputação de Miyazaki e a boa adaptação do livro ajudaram a divulgar o nome e os trabalhos da escritora em vários países onde provavelmente ela nem seria publicada. Lendo algumas resenhas do livro na rede social literária Skoob, dá para ver que muitos leitores só foram conhecer Diana Wynne Jones após terem assistido ao filme do diretor japonês.


Os demais livros da trilogia, O Castelo no Ar e A Casa dos Muitos Caminhos,  não foram adaptados para o cinema. Isso não quer dizer que eles sejam ruins, muito pelo contrário. São duas histórias independentes em relação ao primeiro livro, com protagonistas distintos, mas que de alguma forma se envolvem com a magia. Os personagens do Castelo Animado fazem aparições nos últimos dois títulos, não apenas porque as localidades em que se passam as três histórias sejam vizinhas, mas porque Sophie e cia podem ajudar, através da magia, a resolver os problemas enfrentados pelos protagonistas.


O Castelo Animado

Segundo um velho ditado no reino de Ingary, nas famílias que possuem três filhas, a mais velha será a primeira a fracassar quando todas elas partirem de casa em busca da própria sorte. Sophie Hatter, 18 anos, é a garota “sortuda” do ditado, e por isso já está conformada com seu provável destino. Filha de um próspero vendedor de chapéus, ela vive confortavelmente em Market Chipping ao lado de suas irmãs Lettie e Martha, até que chega o dia em que a saída de casa se torna inevitável.

A morte do pai provoca uma mudança na família Hatter: Fanny, mãe de Martha e madrasta das outras duas meninas, precisa encaminhá-las para a vida lá fora, já que não poderá sustentá-las. Lettie é enviada para trabalhar em um restaurante famoso de Market Chipping, o Cesari's; Martha vai virar aprendiz de feiticeira com a Sra. Fairfax; e Sophie, por ser a mais velha, herda o negócio da família. Não é muito legal e nem interessante cuidar de chapéus, mas ela já está acostumada a costurar e a conversar com os modelos postos à venda na chapelaria.

Em mais um dia trabalhando na loja, Sophie é surpreendida pela visita da Bruxa das Terras Desoladas, que acusa a garota de se meter em seus planos. Sophie não entende o que a bruxa quis dizer com isso e é atingida por um poderoso feitiço, que a transforma em uma idosa de 90 anos no mesmo instante. Sem saber como voltar ao normal e com medo de não ser reconhecida pelas irmãs e por sua madrasta, a Sophie idosa sai de casa e segue sem rumo, até parar no Castelo Animado do terrível mago Howl.

Segundo boatos que correm em Ingary, o mago é conhecido por seduzir mulheres e devorar seus corações. Mesmo sabendo do risco que corre, Sophie tenta a sorte no castelo de Howl, onde desempenhará vários serviços domésticos, para desespero do mago. Lá, ela conhecerá o jovem Michael, aprendiz de Howl, e o demônio do fogo Calcifer, responsável por manter o castelo em movimento. Ao lado de seus companheiros de viagem, Sophie tentará, através de um perigoso acordo, quebrar o feitiço e retomar sua vida normal. Só que a Bruxa das Terras Desoladas está atrás de Howl, o que poderá atrapalhar a volta de Sophie ao seu estado normal.

Minhas impressões
Como vários leitores, só fui conhecer o livro depois de ter visto o filme. Fiquei encantada pelo mago Howl mostrado no longa, retratado como um jovem cavalheiro e gentil, além de lindo. Quando peguei o livro, reparei que o Howl criado por Diana Wynne Jones era descrito como um jovem bonito também, só que com o caráter duvidoso: canalha, evasivo, drama queen, extremamente vaidoso, impaciente e arrogante. Sophie também é mostrada de maneira diferente no livro, sendo uma garota de gênio forte, que fala o que pensa, curiosa e enxerida. No filme, ela é mais contida e um pouco tímida, não mostra a mesma determinação da garota/idosa retratada no livro.

Para fazer esta resenha, tive que reler o livro e assistir ao filme novamente porque não me lembrava de várias coisas da história Depois me dei conta de que Miyazaki fez muitas “gambiarras” no enredo, talvez para que o filme tivesse uma duração razoável. É mais ou menos como se ele tivesse criado uma nova história, mantendo o plot do livro mas mudando muitas coisas ao redor. O resultado dele ficou bem interessante, apesar das muitas omissões feitas em relação ao enredo original.

Com relação ao livro, é possível ver como Sophie sai de um estado de monotonia para viver situações que ela nunca havia imaginado. Sua vida ganha movimento justo no momento em que ela vira uma velhinha de 90 anos. A avançada idade permite certas liberdades que ela não teria se ainda fosse uma jovem de 18 anos e vendedora na chapelaria da família. Para desespero de Howl, Calcifer e Michael, Sophie não fica quieta por muito tempo, está sempre procurando algo para fazer, como mostra sua mania de limpar e organizar o que não precisa (ou o que Howl não quer que ela mexa).

Howl tem seus vários defeitos, mas demonstra ter bom coração. Seu talento para a magia, potencializado pelo contrato feito com Calcifer, é um perigo e também uma vantagem contra a Bruxa das Terras Desoladas. A magia também é utilizada para fins mais banais, como fazer com que moças ingênuas fiquem apaixonadas por ele. Em boa parte do livro, Howl passa muito tempo fora para ir atrás de garotas, levando com ele boa parte do dinheiro obtido com os feitiços vendidos às pessoas comuns.

A trama de Castelo Animado é bem estruturada, os personagens são bem construídos e com características que fogem de clichês. Sophie não fica parada esperando que o herói a salve, Howl não é exemplar em termos de caráter e Calcifer não é um demônio cruel. Graças a este último, o castelo pode estar em vários locais ao mesmo tempo, mudança que é controlada através de um disco colorido ligado à porta principal. Através dela, a história muda constantemente de cenário e novos personagens ligados ao passado de Howl surgem.

O Castelo Animado é um excelente livro, que mostra um universo mágico de modo simples, sem se ater a muitos detalhes, como descrever todos os ingredientes de um feitiço. Simplicidade que não quer dizer que a história seja pobre ou fácil demais, mas que diz o que precisa ser dito sem enrolar o leitor. A trilogia do Castelo é uma ótima oportunidade para quem deseja conhecer Diana Wynne Jones e depois trilhar por conta própria pelos vários títulos e mundos fantásticos criados por ela.

Astral do livro


Avaliação

 

domingo, 27 de dezembro de 2015

Leia este mangá: Tamen de Gushi


Conheci essa webcomic/mangá/manhua chinês através do Tumblr, visitando randomicamente alguns blogs dedicados aos mangás shoujo. Lembro que vi algumas imagens muito bonitas, de um casal em várias situações cotidianas. O traço, que achei que fosse de algum mangá, logo me interessou, e então fui saber do que se tratava após fuçar outros blogs.
Sun Jing e Qiu Tong

Segundo o que li no Tumblr, a/o artista responsável pela webcomic, Tan Jiu, postou suas ilustrações em redes sociais, como o Pixiv – um site japonês para ilustradores mostrarem seus portfólios. As ilustrações retratando um casal logo ficaram famosas, e os apreciadores ficaram curiosos para saber se Tan Jiu tinha pretensão de transformar os personagens em protagonistas de alguma história.

Para sorte dos fãs de Tan Jiu, o romance por trás das famosas ilustrações virou a webcomic Tamen de Gushi, postada periodicamente na página do/a artista na rede social chinesa Weibo. São pequenos capítulos, com uma estrutura que se assemelha ao das tirinhas cômicas japonesas, conhecidas como yonkoma. Fiquei surpresa, pois não imaginava que a webcomic fosse Shoujo Ai/Yuri (não sei qual a classificação em chinês, hahaha), já que eu via um casal hétero quando batia o olho nas ilustrações. Foi bem tosco quando descobri isso, o que não tirou meu desejo de acompanhar o romance entre as protagonistas.

Sobre a história
Sun Jing e Qiu Tong são duas estudantes chinesas, de escolas diferentes. Ambas pegam o mesmo ônibus, no mesmo ponto. Sun Jing, reparando na beleza de Qiu Tong, começa a despertar algum interesse sobre esta última. Decidida a fazer amizade com Qiu Tong, Sun Jing tenta abordá-la, mas a  timidez a impede de falar e o plano vai por água abaixo.

Através de um colega de escola, que conhece pessoas ligadas a Qiu Tong, Sun Jing acaba descobrindo o nome e o local onde estuda seu alvo amoroso. Com coragem, ela vai atrás de Qiu Tong e se apresenta, mas a outra, com receio do que ocorreu anteriormente (e pensando que Sun Jing é uma doida), sai correndo. Felizmente, o mal-entendido é desfeito e as duas se tornam amigas.  Só que Sun Jing tenta, em várias ocasiões, descobrir se Qin Tong sente algo mais forte por ela.

Minhas impressões
Depois da surpresa em saber que Tamen de Gushi era, na verdade,  um romance entre duas garotas, fiquei mais surpresa ainda quando vi que havia uma espécie de subplot yaoi. Enquanto as protagonistas puxam a história para o Shoujo Ai/ Yuri, os personagens Qin Xiong e Xuezhang enveredam pelo Shounen Ai/Yaoi (romance entre garotos). Não tem nada de apelativo ou pornográfico no enredo, como talvez alguns possam pensar; os romances ficam naquele terreno do amor idealizado, puro, sem malícia. Bem, pelo menos já se passaram 85 capítulos e nada de beijos também…

Tamen de Gushi é muito fofo: Sun Jing tenta falar o que sente para Qiu Tong, mas essa é meio lerda para saber o que a outra quer dizer. Mop Head, o amigo de Sun Jing, é quem serve de muro das lamentações quando a garota fica desanimada com o andar do relacionamento com Qiu Tong. É dele, aliás, algumas das passagens mais cômicas da história, principalmente quando cai nas brincadeiras idiotas de sua amiga.

A parte ruim de Tamen de Gushi é que os capítulos são MUITO curtos, em que cerca de seis cliques no mouse significam que o capítulo já terminou. E que você tem que esperar cerca de duas semanas até que Tan Jiu lance umas seis imagens para compor mais um capítulo. Triste, mas é o ritmo de trabalho dela/dele.

Tamen de Gushi
é um romance leve e bem-humorado, com um traço muito bonito de Tan Jiu. Se você não se importa de esperar para ler um romance em conta-gotas, acredito que vale a pena experimentá-lo. Torço muito pelo romance das duas meninas, mas Tan Jiu parece que quer matar os leitores de ansiedade quando lança uns poucos quadrinhos da história a cada mês.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Sobre o blog


Este blog foi criado com o intuito de destacar a literatura oriunda da China, da Coreia e do Japão. Enquanto a maioria dos blogs literários abrange títulos das mais variadas nacionalidades, este aqui preferiu focar em um nicho, de maneira a ajudar a divulgar a literatura dos países citados.

Caso tenha alguma sugestão de livro que ainda não foi colocado neste blog, entre em contato pelo formulário, localizado na parte lateral do blog.

sábado, 19 de dezembro de 2015

Futuros lançamentos da Estação Liberdade


A Estação Liberdade disponibiliza todo ano um catálogo em pdf com os títulos já lançados e os que ainda estão em processo de publicação. De acordo com o catálogo mais recente, voltado para o ano de 2016, há  seis títulos de domínio oriental sendo trabalhados pela editora.

Os títulos no prelo são: O Museu do Silêncio e A Fórmula do Professor, ambos de Yoko Ogawa; Botchan, de Natsume Soseki, e Guerra de Gueixas, de Nagai Kafu (domínio japonês); No País do Cervo Branco, de Chen Zhongshi, e O Garoto do Riquixá, de She Lao (domínio chinês). Infelizmente, não temos nenhuma novidade no domínio coreano.


sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Resenha: Tsugumi


Tsugumi
Banana Yoshimoto
Estação Liberdade
Tradução de Lica Hashimoto
184 páginas

Após anos sendo ignorada pelas editoras brasileiras, a autora japonesa Banana Yoshimoto teve, finalmente, mais um título lançado no país. Além de Kitchen, publicado em 1988 pela Nova Fronteira, os leitores agora podem apreciar Tsugumi, lançado em outubro com tradução direta do japonês pela Estação Liberdade. Cabe ressaltar aqui que Kitchen atualmente só pode ser encontrado em bibliotecas ou sebos – e eu, se fosse você, iria logo no site da Estante Virtual ou do Livronauta para saber onde adquirir um exemplar, pois é um título que vale a pena ler e ter na estante.

A narradora de Tsugumi é Maria Shirakawa, uma estudante universitária de Tóquio que possui boas lembranças do interior do Japão, mais precisamente da península de Izu, onde morava na Pousada Yamamoto, pertencente aos seus tios. Nos anos em que ficou na pousada, morando com sua mãe até que seu pai resolvesse questões referentes a um relacionamento anterior, Maria convivia com suas primas Yoko e Tsugumi, de temperamentos bem diferentes. Tsugumi, a prima mais nova, dona de uma saúde frágil desde o nascimento, cresceu cercada de paparicos de toda a família, o que talvez tenha contribuído para que ela virasse uma jovem mandona e de gênio forte. Cruel nas palavras e nas travessuras, orgulhosa e impulsiva, Tsugumi é aquela criança pirralha que, sabendo do incômodo que causa, aumenta a carga da pentelhice para irritar ainda mais as pessoas. Yoko, por sua vez,  é emotiva e gentil, totalmente o oposto da irmã caçula.

Durante o período de férias da universidade na capital japonesa, Maria é convidada por Tsugumi para passar alguns dias na pousada Yamamoto. Entusiasmada para voltar ao local de infância, sentir o cheiro do mar e relembrar os velhos tempos na pousada, Maria vai a Izu presenciar novas confusões de prima encrenqueira. Os dias de febre e fraqueza não impedem Tsugumi de causar preocupações a todos, sumindo do nada ou executando seus planos sem se preocupar com as consequências.


Minhas impressões

Já havia lido Kitchen algum tempo atrás, e por isso fiquei entusiasmada quando a Estação Liberdade havia colocado Tsugumi como provável lançamento da editora em um catálogo do ano de 2014. Passaram-se meses desde que vi o arquivo com os futuros títulos, e desde então nada de anúncio oficial com data de lançamento, o que me deixou um pouco preocupada. Como havia ocorrido com outros livros de autores japoneses, os títulos previstos sairiam sim, era apenas uma questão de ter paciência e baixar a ansiedade. Felizmente a editora cumpriu o que estava previsto e resgatou Banana Yoshimoto do limbo dos escritores que esperam por uma segunda chance de publicação.

Tsugumi, a personagem-título, é irritante mesmo, principalmente com Maria. Esta teve de aturar vários momentos de infantilidade de sua frágil prima, mas compreendeu que seria um esforço inútil tentar mudar o comportamento da garota. Em um episódio engraçado envolvendo a figura do avô que acabara de falecer, Maria cai em mais uma traquinagem arquitetada pela prima caçula, só que no final resolve ceder à brincadeira idiota e de mau gosto de Tsugumi. Daí em diante, as duas garotas tornam-se confidentes uma da outra, sendo que Tsugumi possui seu jeito peculiar de mostrar apreço pelos outros. É uma orgulhosa e uma peste, afinal.

Para Maria, Tsugumi vive em universo imaginário particular. Na hora de agir, a menina não pensa nas consequências que seus atos infantis podem trazer. Enquanto a cabeça se presta a tramar vinganças e travessuras, a boca espera o momento adequado para soltar pérolas e dizeres rudes, e o corpo planeja de onde tirará as forças necessárias para colocar os planos da garota em ação. Para a prima caçula de Maria, não interessa muito se a soma desses fatores resultará em mais uma semana doente, o importante é ter êxito nos objetivos. 


Gosto do modo acessível como Banana Yoshimoto escreve seus enredos contemporâneos, contando histórias simples e cativantes sem se alongar em passagens desnecessárias. Por outro lado, acho uma pena que os livros dela sejam muito breves, daqueles que, quando a gente se apega fácil, eles já estão chegando ao fim. Quando eu começava a tomar um certo apreço por Tsugumi, a autora, através de Maria Shirakawa, já vinha preparando o terreno para encerrar a história. Ah, droga.

Tsugumi foi um bom lançamento da Estação Liberdade, que está retomando a publicação de autores japoneses há um bom tempo esquecidos no catálogo.  A editora resgatou, além de Banana Yoshimoto, Osamu Dazai e Yasushi Inoue, autores cujos títulos haviam sido publicados no Brasil nas décadas de 1970 e 1980. Espero muito que tragam todos os demais títulos de Yoshimoto, como N.P., Amrita, Lizard, entre outros, não porque sejam da mesma autora, mas porque sinto falta de publicações de escritoras japonesas. Já temos livros das autoras Hiromi Kawakami e Natsuo Kirino, mas são ainda poucos títulos em relação a autores masculinos, como Junichiro Tanizaki, Yasunari Kawabata, Yukio Mishima e Haruki Murakami.


Astral do livro:

Avaliação:




domingo, 6 de dezembro de 2015

Os 50 livros indicados por Hayao Miyazaki


Pegando o embalo do post sobre When Marnie was there, que foi adaptado pelo estúdio Ghibli e virou uma animação esplendorosa, vou colocar aqui a lista dos 50 livros indicados pelo diretor Hayao Miyazaki, um dos fundadores desse estúdio renomado. A lista eu peguei do Ghibli Wiki (http://www.nausicaa.net/wiki/).

A maioria dos livros não possui tradução para o nosso português. Os que foram traduzidos por editoras brasileiras estarão indicados na terceira coluna da lista.


Título Autor(a) Versão em português e editora
The Borrowers Mary Norton Os pequeninos Borrowers - Editora Martins Fontes
The Little Prince Antoine de Saint-Exupéry O pequeno príncipe – várias editoras
The Six Bullerby Children (Children of Noisy
Village)
Astrid Lindgren -
When Marnie was there Joan G. Robinson -
Swallows and Amazons Arthur Ransome -
The Flying Classroom Erich Kästner -
There Were Five of Us Karel Poláček -
What the Neighbours Did, and Other Stories Ann Philippa Pearce -
Hans Brinker, or the Silver Skates Mary Mapes Dodge Os patins de prata – editora Abril, editora
Paulinas, Ediouro
The Secret Garden Frances Hodgson Burnett O Jardim Secreto – Companhia das Letras, Scipione, Editora 34, Ediouro
Eagle of the Ninth Rosemary Sutcliff A águia da Nona – Galera Record
The Treasure of the Nibelungs Gustav Schalk -
The Three Musketeers Alexandre Dumas pai Os três mosqueteiros – Zahar, Martin Claret
A Wizard of Earthsea Ursula K. Le Guin O mago de Terramar, As tumbas de Atuan - Brasiliense
Les Princes du Vent Michel-Aime Baudouy -
The Flambards Series K. M. Peyton -
Souvenirs Entomologiques Jean Henri Fabre -
The Long Winter Laura Ingalls Wilder O Longo Inverno – Record
A Norwegian Farm Marie Hamsun -
Heidi Johanna Spyri Heidi – Abril, Ediouro
The Adventures of Tom Sawyer Mark Twain As Aventuras de Tom Sawyer – várias editoras
Little Lord Fauntleroy Frances Hodgson Burnett O pequeno lorde – Editora 34, editora Abril, Melhoramentos, Editora Technoprint
Tistou Les Pouces Verts Maurice Druon O menino do dedo verde – José Olympio
Editora
The Adventures of Sherlock Holmes Arthur Conan Doyle As Aventuras de Sherlock Holmes –
Melhoramentos, Martin Claret, Zahar
From the Mixed-Up Files of Mrs. Basil E. Frankweiler E. I. Konigsburg -
The Otterbury Incident Cecil Day-Lewis -
Alice's Adventures in Wonderland Lewis Carrol Alice no País das Maravilhas – Zahar, L&PM
The Little Bookroom Eleanor Farjeon -
The Forest is Alive or Twelve Months Samuil Yakovlevich Marshak -
The Restaurant of Many Orders Kenji Miyazawa -
Winnie The Pooh A. A. Milne Winnie Puff – Editora Martins Fontes
Nihon Ryoiki Kyokai -
Strange Stores from a Chinese Studio Pu Songling -
Nine Fairy Tales: And One More Thrown in For Good Measur Karel Capek -
The Man Who Has Planted Welsh Onions Kim So-un -
Robinson Crusoe Daniel Defoe Robinson Crusoé – L&PM, Martin Claret, BestBolso, Record, Companhia das Letras
The Hobbit J. R. R. Tolkien O Hobbit – Editora Martins Fontes
Journey to the West Wu Cheng'en -
Twenty Thousand Leagues Under the Sea Jules Verne 20 mil léguas submarinas – Zahar, Martin
Claret
Il Romanzo di Cipollino Gianni Rodari -
Treasure Island Robert Louis Stevenson A ilha do tesouro – Record, Martin Claret, L&PM
The Ship That Flew Hilda Winifred Lewis -
The Wind in The Willows Kenneth Grahame O vento nos salgueiros – Editora Moderna, Editora Salamandra
The Little Humpbacked Horse Pyotr Pavlovich Yershov -
The Little White Horse Elizabeth Goudge -
The Rose and The Ring William Makepeace Thackeray O Anel e a Rosa – José Olympio Editora
The Radium Woman Eleanor Doorly -
City Neighbor, The Story of Jane Addams Clara Ingram Judson -
Ivan the Fool Liev Tolstoi -
The Voyages of Doctor Dolittle Hugh Lofting -

Resenha: When Marnie was there


 
When Marnie was There
Joan G. Robinson
Harper Collins UK
286 páginas

A resenha deste post não é sobre um livro de autor japonês, chinês ou coreano, mas sobre a obra de uma escritora inglesa. É estranho, eu sei, já que o propósito do blog é focar especificamente na literatura do Extremo Oriente, na tríade China-Coreia-Japão, o que torna este blog um pouco mais restrito. Mas acho que posso me dar ao luxo de realizar algumas exceções, principalmente se o livro  resenhado virou filme pelas mãos de um famoso estúdio de animação japonesa.

(E eu gostaria de informar que vou colocar não apenas resenhas de livros, mas qualquer outra informação que tenha relação com autores ou trabalhos orientais)

Para dar início a essa mudança, prefiro começar com um livro que foi recentemente adaptado pelo Estúdio Ghibli, When Marnie was there, de Joan G. Robinson. O filme Omoide no Marnie foi lançado em julho de 2014 no Japão, mas chegou ao Brasil apenas na segunda quinzena de novembro de 2015, exibido em algumas poucas salas pelo país.

Sobre a autora

Joan Gale Thomas nasceu em 1910, em Buckinghamshire, Inglaterra. Ilustradora, Joan trabalhava fazendo desenhos para publicações de outros autores, até que em 1939 decidiu lançar seu próprio livro, A Stands for Angel. Sob o sobrenome Thomas, a escritora lançou vários livros de temática religiosa voltados para crianças: If Jesus Came to my House, My book about Christmas, If I'd Born in Bethlehem, Christmas Angel, Where's God?, Our Father, entre outros.

Em 1941, após casar-se com o também autor e ilustrador Richard Robinson, Joan mudou a temática de seus livros, deixando de lado as histórias religiosas para focar em enredos temporais. Além de When Marnie was there, a autora é conhecida pelas histórias do ursinho Teddy Robinson e da menina Mary-Mary, clássicos da literatura infantil britânica. Em When Marnie was There, a ilustração dos capítulos ficou a cargo da artista Peggy Fortnum, bastante conhecida pelos desenhos do ursinho Paddington, de Michael Bond.

Joan G. Robinson faleceu em 1988, na Inglaterra, aos 78 anos.


O livro
Para a menina Anna, as crianças são separadas em dois grupos: as que ficam do lado de fora (outside) e as que ficam do lado de dentro (inside) de um círculo mágico invisível. As que ficam do lado de dentro são aquelas que possuem mais desenvoltura na linguagem de fazer amigos, as que são convidadas a participar de passeios e brincadeiras. As pertencentes ao grupo do lado de fora são as crianças que não possuem traquejo social, que estão sempre excluídas de atividades em grupo ou não despertam a atenção dos outros, como se fossem seres invisíveis e insossos.

Pertencente ao grupo dos que ficam do lado de fora, Anna passa a maior parte do seu tempo pensando no nada. Sua inércia em termos de amizades preocupa a mãe adotiva, Sra Preston, que reclama com a  menina, dizendo que ela nem ao menos tenta ser amigável com as outras crianças. Soma-se a esse desastre no campo dos relacionamentos o fato da menina ter asma, doença que a afasta do ambiente escolar por algumas semanas.

Disposta a quebrar o ar de indiferença de sua filha adotiva, a Sra. Preston então combina com seus velhos amigos, Susan e Sam Pegg, para que a menina fique longe de Londres e vá para a região ensolarada de Norfolk, mais precisamente na vila de Little Overton. De clima agradável e perto do mar, o chalé dos Pegg hospedará Anna por algumas semanas, para que ela se recupere da asma e tente fazer novos amigos. Inicialmente, Anna não parece muito animada com a ideia, e tudo o que ela não quer em Norfolk é ser obrigada a encontrar outras crianças e fazer amizades superficiais, que ressaltem sua característica de pertencer ao grupo do lado de fora.

Em andanças pela região próxima da praia, Anna vê uma casa localizada em um pântano. Essa residência velha e abandonada parece ter sido um lar abastado no passado, e sua aparência é bastante familiar, como se a menina a tivesse visto anteriormente. Após alguns dias investigando o entorno, Anna finalmente conhece a misteriosa moradora da casa, uma menina chamada Marnie, que não é quem aparenta ser. Em pouco tempo, as duas viram grandes amigas e compartilham situações familiares que, se não são semelhantes, são dolorosas.

Mas chega o dia em que Marnie desaparece e deixa a amiga para trás, uma separação que ocorre de maneira brusca e sem motivos claros. Ao investigar o que se passou na velha casa do pântano e conhecer os novos moradores do local, Anna descobre as razões do desaparecimento de Marnie e conhece mais sobre seu próprio passado.

Minhas impressões
When Marnie was there é um livro aconchegante, que começa num ritmo lento com as descobertas de Anna na vila de Little Overton e sua paisagem praiana. Com a aparição de Marnie, uma garota travessa, a rotina de Anna em Norfolk ganha dinamismo e fôlego, o que torna o livro mais delicioso para ser apreciado. Os passeios de barco e em torno da casa do pântano que as duas meninas fazem são momentos agradáveis em que o mundo chato e regrado dos adultos não realiza interferências.

Pessoalmente, eu gostei muito deste livro porque me identifico bastante em relação a Anna e suas dificuldades no quesito amizades. Como ela diz em certa altura do livro, ela prefere conhecer sobre as outras crianças do que conhecê-las pessoalmente. Se as outras crianças desejassem conhecer Anna, tudo perderia a graça e seu plano de ficar sozinha seria destruído: os outros meninos e meninas fariam com que ela passasse a gostar de tudo o que eles gostassem, fariam com que ela fizesse tudo o que eles fizessem, fariam com que ela tivesse tudo o que eles tivessem. No momento em que descobrirem que Anna não corresponde àquilo que eles esperam dela, seu interesse pela menina será deixado de lado. As demais crianças então ficarão do lado de dentro, vendo de maneira curiosa a Anna deixada do lado de fora.

Uma coisa que fiz em relação a este livro foi imaginar os personagens como se eles tivessem as mesmas características visuais do filme do estúdio Ghibli. Como assisti ao filme antes de ler o livro, a imagem de Anna como uma tomboy e Marnie como uma garota de longos cabelos loiros ficou fixada na minha mente, e não consegui imaginá-las de outra forma. Mesmo as ilustrações de Peggy Fortnum não foram capazes de realizar uma mudança em minha cabeça. Há alguns personagens do livro que não estão presentes no filme, e é aí que tento imaginar como eles seriam se fossem personagens do filme.

É um livro de certa forma triste, porque logo no início sabemos que Anna foi adotada ainda pequena pelos Preston, chamados de tio e tia pela protagonista. Marnie também tem uma história sofrida, que num certo ponto do livro se cruzará com a de sua amiga Anna. Em algumas ocasiões, pensei que a palavra-chave para este livro fosse abandono, pois foi essa a impressão que tive lendo sobre o passado das duas meninas.

Boa parte do que se passa no livro foi mostrado no filme, então creio que a adaptação do estúdio Ghibli foi de certa forma fiel ao que Joan G. Robinson escreveu. Há alguns personagens que não aparecem na versão animada, mas isso não faz muita diferença, pois a história flui normalmente. Todos os elementos que caracterizam locais na Inglaterra, bem como os personagens do livro, foram adaptados ao contexto japonês: no filme, por exemplo, a região de Norfolk virou uma pequena comunidade ao norte da ilha de Hokkaido, Londres virou Sapporo, e Anna Preston virou Anna Sasaki.


Infelizmente, nenhuma editora brasileira traduziu When Marnie was there, o que é uma pena, pois é um livro excelente para crianças e adultos, dá para ser lido rapidinho. Eu consegui comprar um exemplar em inglês da Harper Collins através do site de compras internacionais Book Depository, que vende exemplares em vários idiomas por preços competitivos e oferece frete gratuito para vários países, incluindo o Brasil. Se você tiver um cartão de crédito internacional e não se importar muito com a variação do preço do dólar, é uma boa opção frente aos preços praticados pelas livrarias brasileiras que importam e ainda colocam suas margens de lucro lá em cima. Só tenha paciência, pois meu livro comprei no final de julho e recebi apenas no final de novembro. No final, valeu muito a pena, recebi o livro intacto e sem avarias, pagando menos de 9 dólares.


(Uma dica para quem tem ansiedade: compre o livro e esqueça que comprou. Como se você tivesse comprado algo no Aliexpress e a encomenda ficasse retida naquele buraco negro dos Correios localizado em Curitiba.)

Para finalizar, eu recomendo, com todas as forças, que vocês possam ler o livro e assistir ao filme, não importa muito a ordem em que vocês farão essas coisas. Gostei muito de ambos, coloquei entre os favoritos de 2015 – embora seja esquisito isso, pois não assisto muitos filmes e minha meta de leitura ficou bem abaixo do esperado.

Astral do livro:

Avaliação: 


terça-feira, 27 de outubro de 2015

Resenha - Sono





Sono
Haruki Murakami
Editora Alfaguara
120 páginas
Tradução de Lica Hashimoto

É o décimo sétimo dia em que não consigo dormir.
É com essa frase que Haruki Murakami, autor do qual ainda falarei muitas vezes neste blog, abre o livro Sono, lançado no Brasil pela Alfaguara. De poucas páginas - são 120, com letras grandes e espaçamento idem, além de páginas ilustradas -, Sono é fácil de devorar naquele horário vago depois do almoço do trabalho. Eu, pelo menos, levei uns 40 minutos lendo e achei que fui lerda... 

A protagonista é uma dona de casa, mãe de um menino e esposa de um dentista, que  não consegue mais dormir após um pesadelo. Nele, um velho está próximo a sua cama, e de repente começa a derramar sobre os pés da protagonista um fluxo contínuo de água, como se estivesse regando uma planta. Tomada pelo horror, ela acorda encharcada de suor, e percebe que seu sono não voltou mais.  A estranha insônia não a esgota nem física nem mentalmente, de maneira que ela consegue ficar em estado de vigília por dias e manter sua saúde intacta. Ciente de que não conseguiria explicar de forma plausível sua situação para qualquer um, ela tenta manter toda a rotina normal de mãe e esposa, escondendo o fato das pessoas que conhece.

Diferente dos dias em que conseguia dormir normalmente ao lado do marido, a protagonista agora consegue realizar alguns pequenos prazeres enquanto permanece de olhos bem abertos. Apreciar chocolate, reler Anna Karênina e nadar melhor estão entre as atividades que ela passa a fazer enquanto seu filho e seu marido permanecem na mesma vida diária. É como se, após viver um cotidiano entediante e mecânico em torno da família, tudo ganhasse mais brilho, mais vigor. A realidade de agora é mais atraente, ainda que para isso é preciso estar privada de sono.

Por ser um trabalho breve de Murakami, é melhor eu parar por aqui, antes que eu revele coisas demais sobre o enredo. Só senti ao final um estranhamento, pois para mim o conto acabou de repente, em um momento tenso da protagonista. A história poderia continuar e nos poupar do suspense presente na última página. Mas pontas soltas na história de Murakami não coisas incomuns, então dá para relevar.

Astral do livro:

Avaliação:  

 

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Resenha - Battle Royale




Battle Royale
Koushun Takami
Editora Globo
664 páginas
Tradução de Jefferson José Teixeira

Battle Royale, de Koushun Takami, causou um enorme alvoroço na época de seu lançamento, devido ao teor violento e polêmico do enredo. Dois anos antes de ser levado às livraria japonesas, o texto original de Takami havia sido enviado ao concurso literário Japan Grand Prix Horror Novel, que premia os melhores textos na categoria terror. Infelizmente os juízes consideraram o conteúdo do romance de estreia de Takami extremamente violento, até mesmo em relação ao material a que estavam acostumados a avaliar para o concurso, e decidiram desclassificar o texto de Battle Royale da disputa pelo grande prêmio.

Battle Royale foi lançado pela editora japonesa Ohta Books em 15 de abril de 1999, obtendo a espantosa marca de 1 milhão de exemplares vendidos no arquipélago. Com o sucesso, vieram os debates acerca da violência extrema envolvendo estudantes do ensino fundamental, característica que marca o enredo do único livro lançado por Takami. Após o burburinho, vieram também as adaptações, como o filme dirigido por Kinji Fukasaku lançado em 2000, e o mangá, com roteiro do próprio Takami e desenho de Masayuki Taguchi.

O enredo
Tendo como cenário a fictícia e totalitária República da Grande Ásia Oriental – que na verdade é o próprio Japão -, os estudantes do nono ano do ensino fundamental da escola Shiroiwa, da província de Kagawa, são levados a uma excursão. Nessa turma de 42 alunos, há gente de todos os tipos: marginais, esportistas, mauricinhos e patricinhas, pessoas de boa e má índole. Todos eles viajam juntos para o que imaginam ser uma viagem escolar normal.

No início do livro, somos apresentados aos personagens que irão sustentar grande parte do enredo, seja do lado dos mocinhos ou dos vilões. Shuya Nanahara, que viveu em um orfanato e adora tocar guitarra; Noriko Nakagawa, a garota gentil e inocente; Shogo Kawada, o aluno transferido e com cara de marginal; Kazuo Kiriyama, o riquinho e esnobe que mantém uma gangue de malfeitores; Shinji Mimura, o garoto popular e extremamente hábil nos esportes; e Mitsuko Souma, a delinquente e traiçoeira líder de uma gangue de garotas.

Dentro do ônibus de viagem, todos os alunos papeiam, sem desconfiar que nas próximas horas estarão envolvidos em um jogo sangrento promovido pelo governo da República da Grande Ásia Oriental. Passado algum tempo, o ônibus em que os jovens estão é invadido por um gás, que aos poucos provoca o adormecimento de cada um deles. Quando todos acordam, estão em uma escola situada em um lugar distante, numa ilha chamada Okishima, esvaziada e preparada especialmente para o grande evento no qual restará apenas um aluno sobrevivente.

Dentro da sala de aula da escola abandonada, os alunos da Shiroiwa descobrem, da pior maneira possível, que foram escolhidos para o “Programa”, um experimento militar anual que seleciona aleatoriamente apenas as turmas do nono ano de qualquer local da República. No Programa, os alunos da classe escolhida são obrigados a participar de um jogo macabro, no qual precisam matar uns aos outros, até que reste apenas um vencedor, que receberá como prêmio uma foto autografada do Grande Líder e uma pensão vitalícia. Kinpatsu Sakamochi, o “professor” que adentra a sala e comanda o Programa do ano de 1997, toca o terror logo de imediato, mostrando aos estudantes da Shiroiwa que eles não têm outra opção senão participar do jogo.

A matança promovida pelo Programa não é isenta de regras, tudo foi extremamente planejado para evitar brechas fugas dos alunos. Cada um dos jovens receberá um kit contendo os itens essenciais para jogar: uma arma, água, pão, lápis e um mapa. Só o problema é que a arma contida em cada kit não é a mesma para todos, o que torna a luta muito desigual e ainda mais cruel. O aluno que se vire para achar um jeito de eliminar os outros participantes. Além do kit, os estudantes possuem uma coleira eletrônica presa ao corpo, que registra seus passos, batimentos cardíacos e conversas. Ela sozinha possui a capacidade de matar quem tentar burlar as regras do jogo.

São dados apenas dois dias para que o jogo corra por toda a ilha. Se os alunos não começarem a matar seus colegas dentro de 24 horas, o Programa então detonará todas as coleiras, matando todos os participantes sem que haja um vencedor.

Até que enfim!
Após quase 15 anos de sua publicação no Japão, finalmente alguma editora brasileira se interessou pelo título, que já era conhecido de alguns fãs brasileiros devido às adaptações que desembarcaram por aqui – a editora Conrad publicou entre 2006 e 2012 a adaptação em mangá, e em 2007 o longa-metragem foi lançado em dvd pela Visual Filmes. Em 2014, a Globo Livros trouxe o único livro de Koushun Takami em uma versão caprichada, cuja capa chama atenção pelo visual de filme de ação, com uma aplicação em verniz que reproduz os nomes dos alunos da escola Shiroiwa e o mapa com seus quadrantes.

O livro possui um texto fluido e fácil de ler, o que torna a leitura dele mais rápida. As 664 páginas cobrem bem os dois dias de jogo, mostrando não apenas o massacre ao qual os estudantes são obrigados a aderir, mas o passado trágico de vários desses jovens. O grupinho de Shuya Nanahara, o protagonista do enredo, tenta a todo custo buscar meios de escapar da ilha, e para isso evita entrar em combate contra seus próprios colegas de escola. Mas infelizmente, neste jogo de matar ou morrer, não é possível confiar cegamente em ninguém e nem prometer que ninguém irá se ferir. As aparências enganam quase o tempo todo, e são responsáveis por desencadear muitas mortes de uma só vez.

O massacre que se segue ao longo do livro é descrito de maneira detalhada, o que talvez tenha influenciado o júri do Japan Grand Prix Horror Novel a vetar a passagem de Battle Royale às finais do concurso. Nem todos os que estão no jogo querem matar, mas os que realmente jogam matam sem dó nem piedade, muitas vezes com o uso de encenações. Ao final de cada capítulo, há uma contagem de alunos sobreviventes.

Algumas passagens do livro são entediantes, mas não chegam a atrapalhar o andamento da leitura. Muitos personagens secundários são mortos rapidamente, sem deixar rastros de saudade. Outros, que ainda guardam a sanidade e querem o bem de seus colegas, infelizmente deixaram uma sensação amarga quando foram assassinados. Na parte final, o livro atinge um ritmo mais eletrizante quando os poucos sobreviventes entram em combate, e aí uma pontinha de tristeza surge porque o livro está acabando.

Apesar do número de páginas,  Battle Royale pode ser devorado com muita rapidez, porque a vontade de saber quem irá vencer o Programa faz com que o leitor não queira desgrudar tão fácil do livro. 

 Astral do livro


Avaliação 




terça-feira, 26 de agosto de 2014

Resenha: Moribito - o guardião do espírito




Moribito: o guardião do espírito
Nahoko Uehashi
Editora Martins Fontes
226 páginas
Tradução de Rodrigo Neves


Este livro encontrei por acaso, fuçando no site da Martins Fontes logo após saber da existência dos livros da escritora Kazumi Yumoto, autora de "Amigos" e "O Outono do Álamo" (que futuramente terão suas resenhas publicadas aqui no blog). De início não me senti impelida a adquirir Moribito, já que a sinopse não me pareceu muito atraente, então deixei pra lá. A capa era um pouco diferente, com uma ilustração parecendo mangá, mas mesmo assim achei melhor dar prioridade a outros títulos, principalmente os de Haruki Murakami :P

Em meados de maio deste ano, fui dar uma garimpada numa livraria da minha cidade, até que encontrei Battel Royale, de Koushun Takami. Como o dinheiro na carteira ainda me permitia comprar mais outro livro, fui até a estante de livros infanto-juvenis e fucei. De repente vi Moribito, o que achei estranho, já que é raro encontrar livros menos "famosos" por aqui. Na ânsia de ler algo diferente, dei uma chance e comprei o título, que ficou um tempo encostado aqui na minha estante. E aqui está ele, entre os livros resenhados pelo Oriente Literário!

Moribito: o guardião do espírito faz parte de uma série de 12 livros escritos por Nahoko Uehashi, etnóloga e professora da Kawamura Gakuen University. Esta série vendeu mais de um milhão de exemplares no Japão, onde Uehashi recebeu vários prêmios literários, entre eles o de escritora revelação/ categoria literatura infanto-juvenil do Noma Bungei Sho, tradicional premiação da literatura japonesa. A autora foi agraciada recentemente com o prêmio Hans Christian Andersen, que contempla os melhores autores da literatura infanto-juvenil mundial.

No Brasil, Moribito foi publicado em 2011 pela editora Martins Fontes que, infelizmente, não deve ter se interessado pelo restante da série. Em inglês, a editora americana Scholastic publicou os dois primeiros volumes pelo selo Arthur A. Levine, dedicado ao segmento infanto-juvenil. Porém, as vendas da série não foram suficientes para que os demais volumes fossem traduzidos e lançados nos EUA, o que torna praticamente inviável aos leitores que não sabem japonês a leitura dos volumes restantes.

Sobre o enredo

Moribito  mistura elementos mitológicos e traços de um Japão antigo para contar as aventuras de Balsa, uma guerreira que protege as pessoas para expiar parte de seu passado e  que atua como guarda-costas. Nascida em Kanbal, Balsa vaga pelos territórios vizinhos para sobreviver e entrar em combate com outros guerreiros, já que a vontade de lutar tornou-se praticamente um vício, muito mais que um meio de obter o sustento. Munida de uma lança, ela é uma exímia guerreira, que não se importa com os ferimentos graves obtidos em batalha, desde que ela vença.

Neste primeiro volume, Balsa presencia um acidente envolvendo o segundo príncipe de Nova Yogo, Chagum, um menino de 13 anos. Um dos bois que puxa a carruagem em que Chagum está é estranhamente atacado durante a travessia de uma ponte, e a confusão acaba por jogar o menino ao rio. Todos os servos pulam na água na tentativa de salvar o segundo príncipe, mas é Balsa quem consegue retirá-lo com vida. Após o salvamento, a lanceira é convidada pela Segunda Rainha de Nova Yogo a desfrutar da comida e da estadia no palácio, como forma de retribuição ao salvamento do menino.

Mesmo recusando os luxos oferecidos como cortesia, Balsa é convencida a ficar pelo menos uma noite no palácio. Posteriormente, a Segunda Rainha em pessoa vai até os aposentos em que a lanceira se encontra, para agradecê-la e fazer um pedido que mudará o destino de Balsa e Chagum. Desesperada, a Segunda Rainha conta a Balsa que seu filho Chagum precisa ser protegido e retirado das dependências do palácio, pois a vida dele corre perigo. Uma estranha criatura está dentro do corpo do menino, e o Mikado - governante de Nova Yogo , sob os conselhos dos sábios chamados de Astromantes, pretende matar o próprio filho para impedir que uma catástrofe aconteça ao seu povo.

Aceitando o pedido da Segunda Rainha, Balsa leva Chagum embora e arma uma cena para isso. O local em que ela e Chagum estavam pega fogo de maneira proposital, para que todos pensem que o menino morreu. Cientes da armação, os Astromantes, o Mikado e seus oito guerreiros partem em busca do segundo príncipe para acabar de vez com a possível maldição que poderá devastar Nova Yogo.

A partir da aparição de Tanda, amigo de Balsa, e dos astromantes nos capítulos seguintes, o leitor saberá qual maldição paira sobre Chagum: ele é o hospedeiro de um ovo do Nyunga Ro Im, uma criatura que vive no mundo invisível chamado de Nayugu. O Nyunga Ro Im, segundo uma lenda, é um ser que tem capacidade de controlar as condições climáticas do Nayugu e do mundo visível, chamado de Sagu. A cada cem anos, o Nyunga Ro Im põe seus ovos nos dois mundos, sendo que no Sagu um dos ovos é sempre depositado em uma criança, que fica então responsável por hospedá-lo até sua abertura no solstício de verão. Caso o ovo não abra no período certo, ou seja comido pela criatura chamada de Rarunga, uma terrível estiagem se prolongará em Nova Yogo pelos próximos cem anos.

O trabalho de Balsa e seus amigos é descobrir como proteger Chagum e o ovo das garras de Rarunga, o demônio da lama, bem como evitar que o Mikado e seus capangas matem o menino. Para isso, Tanda e sua mestra, a xamã Torogai, serão imprescindíveis.

O livro de Nahoko Uehashi tem um ritmo rápido, um enredo que lembra muito os animes - não à toa que Moribito ganhou uma série animada, chamada de Seirei no Moribito, produzida pelo estúdio Production I.G. São ao todo 24 episódios que, pelo nome de cada um deles, eu presumo que cubram apenas este primeiro volume. (Não assisti a série animada, mas pretendo ver futuramente, quando tiver tempo de sobra)


O livro é curto, com pouco mais de 200 páginas, nada difícil de encarar. O porém é que a autora introduz muitos termos próprios dos povos  do enredo, sendo que vários termos relacionados  estão relacionados com o idioma japonês. Para que o leitor não se perca, logo no início do livro há páginas explicando as nomenclaturas citadas no enredo. Sugiro que o leitor veja e tente memorizar os nomes, porque sem isso fica um tanto complicado saber quem é quem.

Em relação ao enredo, senti que faltou algo mais no livro, como se história pudesse ser melhor contada, melhor "amarrada". A Segunda Rainha, que aparece no começo do livro, some do nada, o leitor não é informado o que ocorreu com ela depois do desaparecimento de Chagum. Os astromantes, que detêm de fato o poder, poderiam acrescentar um tempero a mais no enredo, como atrapalhar ainda mais a trajetória de Balsa e Chagum, mas não é isso o que ocorre. O Mikado quase não aparece no livro, o Primeiro Príncipe é citado, mas não se sabe muito sobre ele - só é dito que a relação entre os dois herdeiros ao trono é ruim, já que o filho mais velho do Mikado despreza Chagum.

O desfecho do livro me decepcionou, pois não esperava que a maldição que atormentava Chagum fosse derrotada de uma maneira tão fácil e sem graça. A passagem em que  Chagum se livra do ovo de Nyunga Ro Im e, consequentemente, de Rarunga, foi  rápida e sem nenhuma emoção, o que me pensar em como essa série vendeu bastante no Japão e resultou em mais 11 livros. Não sei o enredo dos volumes seguintes, mas espero que a autora tenha desenvolvido melhor as aventuras de Balsa e cia.

Se por algum acaso a Martins Fontes trouxer outros títulos de Nahoko Uehashi, talvez eu dê uma olhada. Mas após conferir este primeiro volume de Moribito, não me senti nem um pouco impelida a buscar o restante dos volumes.

Astral do livro:

Avaliação:






segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Resenha: A valise do professor



A valise do professor
Hiromi Kawakami
Editora Estação Liberdade
232 páginas
Tradução de Jefferson José Teixeira

À beira dos 40 anos, Tsukiko Omachi é uma mulher solteira, que trabalha numa firma e nas horas de folga frequenta o bar de Satoru. Numa das idas ao bar, ela reencontra seu antigo professor de língua japonesa, Harutsuna Matsumoto, um homem na casa dos 70 anos e que está sempre munido de sua valise. Ele reconhece a ex-aluna, e ela, que não era lá uma estudante muito aplicada, demora um pouco a se lembrar do nome do antigo mestre.

Como vão ao mesmo bar quase todos os dias, Tsukiko e o professor encontram-se frequentemente e passam a dividir as bebidas, e depois descobrem que possuem quase a mesma preferência para os tira-gostos. Conversa vai, conversa vem, os dois criam uma relação muito próxima, que extrapola o simples encontro no bar e se estende aos convites para passeios. Com o tempo, o sentimento de Tsukiko em relação ao professor torna-se mais intenso, a ponto da ex-aluna não conseguir parar de pensar em Matsumoto e não conseguir se relacionar com outra pessoa. Em conflito com seus próprios sentimentos, Tsukiko sofre também porque sente que não é correspondida.

A valise do professor, segundo título da autora Hiromi Kawakami que resenho aqui no blog, é uma história comovente sobre a relação entre o professor Matsumoto e sua ex-aluna Tsukiko. Ele, que vive sozinho desde que a mulher fugiu de casa em circunstâncias bem estranhas, é uma pessoa calma e gentil que encontra em sua ex-aluna uma ótima companhia para seus passeios e conversas sobre haikus de Bashô e comida japonesa. Ela, sem namorado e nem amigos, recorre constantemente ao professor quando precisa de alguém para jogar conversa fora ou passar horas agradáveis.

Mesmo que Tsukiko não seja mais sua aluna dos tempos de ensino médio, o professor ainda continua a ensiná-la, só que o objeto de seus ensinamentos versa sobre coisas muito diferentes. Cogumelos, pratos da culinária japonesa, bebidas, caminhadas, cultura nipônica... É engraçado notar que há muita referência à culinária japonesa e seus vários ingredientes de origem marinha. Confesso que, ao ler este livro, senti muitas vezes água na boca só de ler as descrições que a autora faz dos pratos que Tsukiko e o professor pedem, no bar de Satoru ou em outros estabelecimentos comerciais.

Muito ligada ao professor, Tsukiko vai desenvolvendo ciúmes em relação a ele. Algumas situações bobas também fazem com que os dois parem de conversar ou se encontrar por dias ou semanas, mas isso ocorre muito mais por conta do orgulho e da teimosia de Tsukiko do que por vontade do professor. Para ele, é como se os períodos de silêncio fossem situações corriqueiras, nada que possa interferir de maneira séria em sua vida. Todas as vezes em que Tsukiko retoma contato com o professor, este age como se nada tivesse acontecido.

O clima que ronda o livro é de uma certa tristeza, trazida à tona pelo passado vivido pelo professor e também pela dificuldade que Tsukiko tem em expressar seus verdadeiros sentimentos. Mesmo os momentos em que os dois se divertem em passeios não ajudam muito em dissipar esta sensação.

Leitura rápida, sem muitos rodeios e com toques poéticos, este livro de Hiromi Kawakami é mais um ótimo título trazido pela Estação Liberdade. Vale a pena ler este belo e triste enredo!

Astral do livro:

Avaliação:



terça-feira, 19 de agosto de 2014

Resenha: Quinquilharias Nakano




Quinquilharias Nakano
Hiromi Kawakami
Estação Liberdade
284 páginas
Tradução de Jefferson José Teixeira

Um livro leve e engraçado sobre o cotidiano e os dramas pessoais dos funcionários de uma loja de quinquilharias usadas: é assim que descrevo o livro Quinquilharias Nakano, primeiro título da autora Hiromi Kawakami trazido ao Brasil pela editora Estação Liberdade. Sem um enredo fechado, este livro mostra as situações banais envolvendo os personagens Haruo e Masayo Nakano, Takeo Kiryu e Hitomi Suganuma, às voltas com relacionamentos amorosos e clientes bizarros.

Haruo Nakano é o patrão e dono da Quinquilharias Nakano, uma loja que é equivalente ao que conhecemos como pregão ou brechó (não chame de antiquário, pois o patrão não gosta). Nela, vende-se um pouco de tudo: roupas, artigos decorativos, móveis, eletrodomésticos, objetos de arte. A maioria desses produtos têm origem em "retiradas" que o senhor Nakano faz em casas de famílias que estão de mudança ou que estão se desfazendo de bens que foram de pessoas falecidas. A irmã mais nova do senhor Nakano, Masayo, é uma artista de meia idade que está em um relacionamento complicado, mas não perde tempo em implicar com a vida amorosa do irmão.

Hitomi, a protagonista e narradora do livro, é uma jovem que trabalha como caixa na loja do senhor Nakano. É ela quem tem de aguentar as pérolas do patrão, que a faz também de detetive apenas para ficar de olho em Masayo. Com sentimentos mistos de raiva e amor em relação a Takeo, seu colega de trabalho, Hitomi passa quase o livro inteiro às turras com o rapaz, não sabendo definir o que se passa entre eles. Takeo, o crush de Hitomi, é um funcionário calado, que ajuda o senhor Nakano nas retiradas, fazendo um pouco de tudo dentro da loja. O livro mostra o impasse no relacionamento dos dois jovens funcionários, com Hitomi investindo mais em Takeo, e este sem saber o que fazer.

Além dos funcionários da loja e dos irmãos Nakano, há personagens estranhos e não menos curiosos, como a amante de Nakano, Sakiko, ela também atuante no ramo de objetos usados; Tadokoro, o velhinho safado que tenta vender fotos eróticas; Tokizo, conhecido como Garça, responsável por introduzir o sr. Nakano no mundo dos leilões virtuais; e Maruyama, o amante de Masayo que tem problemas com os proprietários do prédio onde mora. Há clientes interessantes que geram situações engraçadas para a loja do sr. Nakano, responsável por avaliar o preço de cada produto oferecido a ele.

Dessa mistureba de personagens estranhos, surge um excelente livro que versa sobre solidão, relacionamentos complexos e uma certa dificuldade de comunicação. Durante todo o livro, os diálogos passam por comentários meio sem sentido, muitas expressões de espanto e desatenção (ahn?, ah!, como?), e algumas conversas não vão pra frente. Interessante notar como a autora coloca os diálogos: enquanto um personagem conversa com outro, uma conversa tida anteriormente é trazida à tona na cabeça de Hitomi, misturando os tempos. Não sei como se chama esse tipo de recurso (se é que tem um nome), mas o que posso dizer é que o resultado ficou muito bom e diferente do que estou acostumada a ler. 

Por fim, o que tenho a dizer é: leiam este livro! Eu já estou com "A Valise do Professor", também da Kawakami, na fila de leituras, e a expectativa em relação a ele é enorme. ;)

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